“Não foi nada” pra quem?

Tenho observado com muita atenção nos últimos dias o comportamento dos adultos em relação às crianças num quesito especial: os sentimentos. Uma queda, um susto, uma topada, um mergulho indesejado, mexem com a segurança e ela chora, extravasando seus medos e é a forma como pede conforto de quem confia.

Conhecendo nossos filhos, sabemos dizer quando é manha ou quando é um choro verdadeiro… Mas quando temos pais, cuidadores, avós dizendo que “não foi nada”, acho muito estranho, porque muitas vezes isso é dito diante de outros adultos, parecendo que a pessoa evita um olhar crítico de seus iguais, mais do que acalmar o coraçãozinho de quem está sofrendo.

Imagem: http://www.playitsmartorbit.org

Se a criança de quem falamos é uma menina, vejo que ainda lhe é permitido ser mais manhosa e frágil, enquanto do menino é cobrado que reaja prontamente como um guerreiro, que guardará suas cicatrizes para a posteridade, provando sua bravura.

Quem disse que os meninos sentem menos do que as meninas? Quem disse que as meninas desejam ser tratadas como flores frágeis? Às vezes uma conversa para descobrir o que causou a choradeira – nem sempre é uma dor física -, pensar juntos em uma solução (isso quando a criança já tem certa autonomia), tomar um pouco de água ou respirar fundo depois daquele abraço caloroso pode ser o suficiente e não custa caro!

Na hora da dor, o ser humano é igual: fisicamente dói; mas também pode reagir de formas diferentes e não podemos desejar padronizar os sentimentos, senão ainda nos tornaremos pessoas pasteurizadas, como robôs.

Não tenho aqui a solução, não sou psicóloga e nem acredito que um profissional da área possa dar uma receita, já que cada pessoa tem suas peculiaridades, mas um carinho faz bem no momento difícil. Ainda mais se é aquela queda causada por um tremendo sono ao qual a criança está resistindo, ou uma manha de saudade dos pais, que passaram o dia no trabalho e chegam esbaforidos tentando dar conta de tudo, sem se dar conta de tudo o que seu filho mais deseja é um cafuné. Sensibilidade e um olhar atencioso são as minhas dicas. Embora acredite que as mamis que participam deste blog tenham tudo isso de sobra!

Imagem: http://aspirinasurubus.blogspot.com

Comentários deste post

  • Eu me policio muito pra não fazer esse comentário com minha #aos2… mas às vezes escapa…rs

    Concordo com você quando diz que tratamos com diferença o choro de uma menina e de um menino, acabamos reafirmando aquela velha máxima de que “homem não chora” e por consequência não demonstra seus sentimentos.
    É difícil ser mãe e educar de maneira correta nossos pequenos, mas vamos aprendendo…

    Beijão.

  • Acho que os homens são mais insensíveis em relação a este tipo de acontecimento. Muitas vezes tenho que brigar com o marido por causa dessas ideias machistas e antigas em relação ao Italo.

    bjs

  • Rose,

    A gente diariamente tenta remar contra a maré, mas é assim mesmo que acontecem as grandes conquistas, nas pequenas semeaduras, não é mesmo?

    Acho que também vais gostar do texto que escrevi anteriormente, sobre brincar nas diferentes idades…

    Bj!

  • Bicho-mae Flavi disse em

    Nossa! Aqui o “não foi nada’ só sai da boca quando realmente não é nada. É como vc disse, nós mães sabemos diferenciar os choros…Ou pelo menos deveríamos saber.
    Hoje mesmo, meu bebê chorou muito de susto porque uma das cadelas latiu para ele. Fiquei com muita dó e o abracei firme e o acalantei… Como vou dizer nesse momento que não foi nada? Não é possível.

    Adorei o texto.

  • Lindíssimo o texto e bem verdadeiro… O “Não foi nada” é uma coisa que nos escapa da boca… como um legado deixado de geração em geração que a gente perpetua… rs… Mas, no meu caso… eu me policio muito com o meu filho…. Algumas vezes, como foi citado no texto, não é nada mesmo… Mas a gente tem que ter a sensibilidade de entender que tem certos problemas que a gente tira de letra porque é adulto e já tem maturidade para tal (e mesmo quando é uma dor física…), mas para a criança é um bicho de sete cabeças…. acho muito errado banalizar isso. E como alguém aí em cima citou, também tenho “problemas” com algumas reações do meu marido… eu tento não desautorizá-lo na hora que acontece… Mas chamo ele de canto e digo que não é bem assim e ele acaba se corrigindo ou se desculpando… ele (assim como eu), veio dessa cultura de “homem não chora” e às vezes é complicado mudar padrões – é um aprendizado para todo mundo… Para nós, mães é mais fácil… Mas ainda assim às vezes a gente escorrega… Achei fantástica a tua linha de pensamento… e acho que a gente não deve ensinar nossas crianças a não manifestar o sentimento ou fazê-las “engolir o choro”… temos que conversar, conduzi-las para externar o que sentem e assim resolver o nó… para quando forem adultos… enfim… junto do contexto todo da tua postagem, adicionaria ainda que a gente só quer a felicidade deles… às vezes um “não foi nada” ou “vai passar” resolve na hora… e a longo prazo? Bacana é ensinar a conversar!

    • Bethania, acho que captaste bem o “espírito da coisa”: nós viemos de uma geração que engole o choro e os sapos, tendo vários exemplos de pessoas que, quando conseguem colocar para fora, é de forma desastrosa, depois de muita mágoa acumulada…

      Essa sabedoria que estamos adquirindo vem da experiência de crianças-filhas, adolescentes e adultas que além de não terem gostado de ouvir isso, desejam fazer diferente e estamos conseguindo, quando paramos para pensar, não é mesmo?

      Crises de raiva, atirar as coisas no chão também são coisas com que lidamos com nossos filhos. Não estimulamos nem reprimimos, mas tentamos canalizar essa energia para a conversa, para fazer um desenho, para um abraço ou um simples “quando você desejar falar sobre isso, estamos aqui”. Para que no futuro não queiram descontar suas frustrações batendo num colega, fazendo competições no trânsito ou outras atitudes destrutivas.

      É um aprendizado para a vida toda!

  • é vdd Ingrid, certa vez meu filho caiu, se machucou e eu como mãe afetuosa, fui dar carinho, fui fuzilada pelas pessoas, mas isso pouco me importou, eu sei quando falar a ele “levante” ou dar carinho.
    Bjs muito boa a reflexão!

  • É Ingrid,um carinho, um chamego sempre é bom quando estamos desconfortáveis, qto mais para uma criança que nem sempre compreende porque está desconfortável. Nem todo choro merece o mesmo tipo de tratamento, mas com certeza menosprezzar os sentimentos não é tratamento adequado nunca. Eu uso muito a frase “Não foi nada, qdo casar sara.” que minha mãe também usava, mas só uso quando o desconforto já está realmente passando e a digo de forma a arrancar alguns sorrisos.

    Beijos

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