Cultura de Paz versus Brinquedos Bélicos

Algum tempo atrás estava muito incomodada com um comportamento agressivo que o Caio, agora com 3 anos, vinha apresentando. Ele batia na irmã, andava irritado, jogando brinquedos no chão e parecia frustrado.

Com o passar dos dias, frases como “eu tenho uma espada que fura”, “minha arma atira”e “eu vou te matar” passaram a ser freqüentes e me assustaram, especialmente por não costumarem ser pronunciadas ou não fazerem parte do repertório de leituras que fazemos ou da programação que o pequeno assiste.

Custou um bocado até que ele verbalizasse seus sentimentos e sobre um coleguinha que vinha  batendo no filhote repetidas vezes, como vocês podem conferir aqui: http://www.nestle.com.br/vidademae/author/ingrid-strelow.aspx -, mas minha preocupação apenas aumentou quando ouvi, em reuniões com a psicóloga e a professora da escola, que a minha idéia de desarmamento das crianças no ambiente escolar, que elas acreditavam que eu estivesse exagerando em querer implantar um programa de cultura de paz na escola, já que em casa o Caio não convivia com esse tipo de “estímulo” e que cada família lida com isso de um modo diferente. – Não me convenci. Na verdade, fiquei indignada.

Conseguimos conversar e superar a fase de apanhar do colega, conseguimos fortalecer o pequeno com a argumentação: “não quero que me bata”, “depois eu empresto o brinquedo” e tudo parece ter melhorado muito, inclusive em casa, mas…

Personagens como Homem Aranha, Ben 10 e outros que não faziam parte do nosso mundo, continuam não sendo assistidos, porém citados e as cenas de um menino pegando a colher de pau, o lego ou outros brinquedos e simulando lutas parecem ser algo que o diverte muito. Parentes e amigos o presentearam com bonecos “da vez” e alguns deles, ao contrário do que eu soubesse, gritam, em inglês: “fogo! “(seguido do som de uma rajada de tiros).

Aí me deparo com todo o discurso que sempre dei sobre conversar para resolver as coisas, que brincar de lutas e de matar não é legal e, mesmo assim, ele continua adorando!

Imagem: www.whitehouse.gov1.info

No final de semana, fiquei sabendo que com meu afilhado não é diferente. Minha comadre fez uma limpeza nesse tipo de brinquedo, mas o rapazinho adora espadas e acaba que galhos de árvore, palitos de picolé ou os próprios dedinhos acabam servindo para o mesmo fim.

Eles adoraram conhecer o carro da polícia no parque, ficaram radiantes, vejam só:

Aí vem a pergunta: será que estamos erradas em proibir ou desestimular esse tipo de brincadeira?

Vivemos evitando falar da morte, do medo, tentamos proteger as crianças de traumas, mas parece que elas, ao brincarem com isso, conseguem elaborar melhor esses temas, ao contrário do que pensamos: o monstro imaginário que está embaixo da cama é encarado de frente e deixa de ser o inimigo;  o medo do escuro poderá acabar ao empunhar a espada que, como mãe, tanto detesto. O amigo, “morto em campo de batalha”, sai rindo da situação e novo jogo começa, novo tema é tratado… Então, o tabu é dos adultos!

Lendo algumas entrevistas de psicólogos e pedagogos, descobri que brincadeiras “violentas”são importantes para o desenvolvimento da criança. Que lidar com certos artefatos de brinquedo pode ser muito bom (oi?!)! Isso não significa que não devamos abordar o tema da violência e deter comportamentos agressivos, mas talvez usar a brincadeira como mote para ajudar a compreender situações como a competição – afinal, quem morre, perde o jogo -,  assim como a fantasia de ser princesa ou rei, ou campeão de algum esporte não é impedida na brincadeira. Porque através da fantasia a criança aprende a separar o que é real do que não é. Brincando, problemas, são solucionados, regras são aprendidas e negociações são feitas.

Meu afilhado, que completará 5 anos, esses dias se deparou com cenas de violência na TV, em que viu meninos empunhando armas de verdade e soube reconhecer a diferença. Questionou a razão, disse que as crianças deveriam estar com amigos, na escola, não em uma guerra. Foi um imprevisto, mas ele assistiu e se assustou. A mãe foi hábil em explicar que muitas vezes, ao invés de aproveitar a escola, algumas pessoas se envolvem com coisas ruins… E ele disse: – Armas para crianças são apenas as de brinquedo!

Questionar o motivo que atrai tanto as crianças para esses brinquedos pode ser uma alternativa, dizem os especialistas.  Não sei dizer se hoje em dia o Caio saberia explicar… Mas a motivação é a brincadeira com os amigos, pelo que percebo.

Imagem: www.superstock.com

Então, sim, até mesmo através dos brinquedos bélicos, é possível aprender sobre cultura de paz. Está sendo duríssimo reconhecer isso.

Comentários deste post

  • Aqui só não gosto de armas explícitas, como revólver, por exemplo, mas não vejo problemas nas brincadeiras de lutas e de mocinhos x vilões. Como você colocou, eles elaboram bem, na maioria das vezes sabem discernir brincadeira de realidade. Se a gente fala, dizem: “Mas mãe, é só brincadeira”, rs. Quando a criança começa a extrapolar, a usar de violência baseada no que viveu na brincadeira, aí sim, é hora de intervir e de buscar ajuda, pois ela não está elaborando bem a questão e, com certeza, a culpa não é dos brinquedos, nem dos desenhos.

  • Oi Ingrid!!!
    Realmente não se pode esconder essa verdade, é uma realidade que todos os dias bate a nossa porta explicitamente, cada vez mais.
    Se não tiver essa abertura em casa, com os pais orientando, terá esse encontro na escola, com coleguinhas na rua, primos etc. E aí sem um adulto pra mediar essas descobertas, será difícil depois agir.
    Legal ele ter conhecido o policial, seria uma oportnidade ótima dele explicar como é o trabalho e quando ele usa a arma ou não. Que não é brincadeira, que machuca e tal.
    A violência dessas brincadeiras infantis, de lutar por exemplo, pode estar mais nos nossos olhos do que nos deles, por que sempre existiu, mas não era dado tamanha importância. Só se passar dos limites, se machucar, se a violência tornar hábito durante o dia… aí temos qu intervir.
    Adorei seu post!! Muito reflexivo!!!
    Beijocas, Ju.

  • Obrigada, meninas! Geralmente trago dúvidas e experiências próximas, porque fica mais rico do que um post sobre um tema que desconheço completamente…

    Ajudando a pensar juntas acho mais fácil de encontrarmos soluções!
    Beijo!

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